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Café Janela da Serra: uma experiência de retorno às origens

MEU CAFÉ NO SISTEMA FAEMG SENAR
ESCRITO POR JULIANA CAMPOS, DE VARGINHA
03/02/2026 . SISTEMA FAEMG, SINDICATOS, SENAR, INAES, FAEMG

Inspirada pelo cenário exuberante da Serra da Mantiqueira, a produtora rural Angélica Mislene de Oliveira batizou a sua marca de café de “Janela da Serra”. Uma alusão tanto à paisagem privilegiada vista da sua lavoura, entre as montanhas da Comunidade de Estiva, em Campos Gerais, no Sul de Minas Gerais, quanto ao significado de pausa, para retorno às origens familiares. “Para mim, janela também significa um espaço de tempo, uma pausa na carreira profissional para resgate da minha origem, de onde vim, o que eu sou”, reflete a produtora.

Do campo à cidade

A história começa na Comunidade Rural de Guaripú, também em Campos Gerais, onde moram os pais, Giovani Batista de Oliveira e Ana Maria de Brito Oliveira, que por muito tempo foram trabalhadores rurais, prestando serviços em fazendas da região, na colheita e pós-colheita do café e no manejo. Anos mais tarde, eles conseguiram adquirir um pedaço de terra de aproximadamente seis hectares, onde hoje está o sítio da família. Desde então, eles passaram a conciliar o trabalho para os outros e o feito dentro das próprias terras.

Ainda criança, Angélica se lembra de acompanhar os pais para os cafezais e, entre brincadeiras, também contribuía com pequenos serviços. “Eu ajudava a esticar o pano debaixo dos pés de café para a apanha e também mexia o café no terreiro. Com nove anos, ganhei o meu primeiro pagamento por esses serviços, R$ 20 (que na época tinha um poder de compra maior) e comprei uma boneca”, recorda.

Ela ajudou a família na colheita até os 14 anos. Incentivada pelo pai, daí em diante, ela passou a focar nos estudos e foi trabalhar no comércio da cidade. Anos mais tarde, ela fez faculdade de Farmácia e se mudou para Belo Horizonte para trabalhar em drogarias, na profissão que escolheu. Mas a chegada da pandemia de Covid-19 provocou tensão, cansaço e algumas reflexões. “Eu tive necessidade de parar, vieram as lembranças das minhas origens, de onde vim e o que eu fazia em Campos Gerais. Fiquei dividida entre a missão profissional, como farmacêutica, e a necessidade de se reconectar com o meu passado", lembra.

De volta para o campo

Em 2021, ela usou as economias e comprou um pedacinho de terra, onde plantou 10 mil pés de café. Em conversa com o pai, ela explicou o que tinha visto na cidade grande – o crescimento do café especial e das cafeterias - e o convenceu sobre a importância do cuidado especial em busca de um resultado diferenciado, passando a contar com a ajuda dele na lavoura. Em 2023, o cafezal deu a primeira produção. Os grãos, ela levou para um técnico e para um mestre de torra a fim de descobrir se a safra tinha atingido atributos de café especial. O resultado foi um café acima de 80 pontos. Nesse período, ela fez vários cursos pelos Senar: de comercialização e classificação de cafés, cafés especiais e de barista.

“Eu compreendi como o produtor não entende do produto que ele mesmo produz. Assim, levei o meu pai para provar o café que ele produz e perceber que também produzia um café de excelente qualidade”. Angélica percebeu que, com conhecimento técnico, o produtor ganha argumento para discutir preço.

Com os novos conhecimentos e com a experiência dos pais, a família implementou mudanças no cafezal: escolha do ponto certo de maturação do café; separação de lotes para não misturar talhões; terreiro suspenso para ter uma seca mais lenta, sem contato com a terra, e a conscientização sobre a importância da preservação das nascentes, das Áreas de Preservação Permanente (APP) e do solo.

Em pouco tempo, a lavoura do pai de Angélica alcançou resultados diferentes: de bebida rio para bebida dura ou mole. Já no cafezal de Angélica, a evolução continua, com uma produção de 30 sacas e pontuação de 82,5 e notas de caramelo e chocolate. Na safra de 2026, a expectativa é atingir 50 sacas.

Inovação: café fermentado

Os avanços não param por aí. Com o conhecimento farmacêutico, a produtora decidiu criar nano lotes de café fermentado: sacas de café são separadas em bags que não permitem a entrada de oxigênio. Dessa forma, os microrganismos do próprio café produzem a fermentação. O processo dura de 72 horas a 92 horas. Angélica explica que a quebra do açúcar faz com que melhore o sensorial do café.

“No primeiro ano da experiência, conseguimos notas de frutas cítricas e acidez evidente. Já no segundo ano, de frutas vermelhas, com pontuação recorde, de 85 pontos. É interessante o resultado diferente a cada ano. A fermentação deixa a bebida mais exótica”, explica a produtora e farmacêutica. Os nano lotes de café fermentado são vendidos em cafeterias de Belo Horizonte a preços também diferenciados, de R$ 80 o quilo.

Hoje o desafio da família é que o café “Janela da Serra” seja conhecido por mais consumidores. “O meu sonho é que mais pessoas bebam do nosso café e percebam que, além de um bom produto, nós temos uma história para contar e muito carinho pelo que é produzido. Também desejo que um dia o pequeno produtor seja mais valorizado e que o café seja minha principal fonte de renda”, afirma.

O café “Janela da Serra” foi selecionado para participar do projeto “Meu Café no Sistema Faemg Senar”, de fevereiro, e será apresentado em degustações e encontros institucionais realizados na sede do Sistema Faemg Senar. O objetivo é valorizar os cafeicultores e incentivar oportunidades de mercado.

Quem quiser conhecer mais sobre o café “Janela da Serra”, acesse a página da marca no Instagram: https://www.instagram.com/cafe_janeladaserra/