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10 startups do agronegócio para ficar de olho

TECNOLOGIA E INOVAÇÃO
ESCRITO POR POR RENATO SERAPHIM, AGTECH GARAGE
19/01/2022 . INAES
A digitalização do agro vem sendo fortemente puxada pelas agtechs, que devem ganhar mais força em 2022. (Foto: Freepik/ jcomp)

Todo momento de fechamento e início de ano é temporada para planejar o futuro. No ano passado, eu me atrevi, a partir do meu olhar de executivo e empreendedor, a citar as 13 startups do agronegócio, as famosas agtechs, que eu acreditava que iriam brilhar em 2021 — em receita, projeção de crescimento e captação de recursos e talentos. 

Fiquei muito feliz em ver que a maioria delas tiveram esse sucesso: empresas como Agristamp, Atomic Agro, Bart Digital, Digifarmz, Solubio, Flex interativa, Goflux, Grão Direto, Inova farm, Safe Trace, Seedz, TerraMagna e Traive. Todas elas, sem exceção, tiveram em 2021 seus negócios ampliados e acompanharam o crescimento do agronegócio.

Agora, em 2022, vou listar outras 10 agtechs de grande potencial para deslanchar no ano que recém começou. Escolher as 10 mais, em um ambiente onde temos 1.574 excelentes empresas e onde o Brasil se destaca no âmbito mundial, não foi tarefa fácil.

Meus critérios são bem simples: inovação do produto (ou seja, qual “dor” ele resolve para o agricultor/pecuarista), o quão simples é o processo de adoção (antes/dentro ou depois da porteira) e o talento das pessoas envolvidas na gestão

Esse texto vem para que vocês possam conhecer um pouco mais sobre elas e, como eu, acompanhar o nível de crescimento e as entregas neste ano de 2022.

Um ano importante 

O ano de 2021 foi um ano de grandes transformações no agronegócio e fomos reconhecidos como a agricultura mais competitiva e sustentável do mundo. Em um ranking com 187 países, o Brasil liderou o crescimento de produtividade no mundo com taxas de crescimento de 3,18% ao ano, segundo estudo publicado em outubro pelo Serviço de Estudos Econômicos do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Taxa de crescimento da produtividade agrícola a nível mundial (Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento)

Grande parte desse dinamismo e dessa competitividade vem da nova geração, que está assumindo o comando do agronegócio brasileiro. Comparando a idade média dos produtores brasileiros em 2015 versus 2013, a Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA), identificou uma queda de 3,1% no período, para 46,5 anos. Esse resultado foi impulsionado pelo aumento da presença de jovens entre 20 anos e 35 anos no campo, que saltou de 15% para 27%. 

Outro ponto que me chama a atenção está em um levantamento sobre digitalização no campo realizado pela associação GS1. Nessa pesquisa, que teve foco em questões ambientais, sistema de gestão e de processos, a agricultura brasileira apareceu com um índice de 0,18, em uma escala que vai de 0 (ausência de automação) a 1 (digitalização plena). 

Vale a pena destacar mais alguns dados dessa pesquisa:

– 79% dos agricultores não utilizam sistemas alternativos de energia (oportunidade para as empresas que fornecem energia solar, eólica etc)

– 80% não possuem uma simples estação meteorológica 

-63% ainda fazem a gestão de sua propriedade em planilhas de Excel e 15% em anotações (oportunidades para empresas de softwares de gestão, ERP etc)

– 67% das propriedades não possuem internet satisfatória (oportunidade para conectividade/5G)

-64% não possuem ou não tomam decisões com informações baseadas em imagens de satélite

Todo esse dinamismo de nossa juventude na agricultura brasileira, e esse índice de digitalização, faz com que o ambiente para as startups seja muito fértil. E reforça o meu pressentimento de que algumas dessas serão os grandes unicórnios e consolidadores do futuro do setor.

Já disse aqui que as grandes empresas de tecnologia, na maioria dos casos, nasceram em garagens ou dentro das universidades e que estamos vivendo esse mesmo movimento no setor das agtechs. A minha pergunta nesses tempos é quem, a exemplo das Big 4, como conhecemos Alphabet (Google), Apple, Amazon e Meta (Facebook), serão as Big 4 Agtechs. Todas essas empresas tinham uma ideia disruptiva e foram consolidando tecnologias e plataformas.

TOP 10 agtechs para ficar ligado em 2022

Vamos agora falar das minhas apostas para este Ano Novo e quais, afinal, são os diferenciais dessas startups para o agronegócio brasileiro:

IZagro: A IZagro tem como principal objetivo levar informações e conectar produtores com o mercado de uma forma escalável, ou seja, democratizando o acesso às ferramentas digitais. Hoje ela conta com quase 60 mil usuários em todo o Brasil, com uma área de quase 8 milhões de hectares. 

A startup se propõe a ser a Zappos da agricultura (varejista online americano de calçados e roupas com sede em Las Vegas), com um forte foco em captação de usuários, mapa de oportunidade, engajamento através de notificações e notícias, captura dessas oportunidades e efetividade de vendas. Isto é, a alta capacidade de levar o “lead” (potencial consumidor) diretamente até a conclusão da venda. 

O grande desafio será o de formar uma rede de consultores autônomos que levem a esse pequeno e médio agricultor, produtos, serviços e crédito. Para o agricultor, isso garantiria uma rede de especialistas de fácil acesso e proximidade da sua região.

A IZagro gera valor conectando produtores rurais e técnicos com empresas produtoras de insumos e tecnologia

OpeneemOs biodefensivos são o futuro do agro e a Openeem quer ser autoridade nesse segmento de transição para uma agricultura mais consciente. O foco é o desenvolvimento e a distribuição de biofertilizantes e biodefensivos de base botânica para o setor agrícola. Toda produção vem de florestas próprias, sendo a árvore de nim (muito comum no sul da Ásia) a grande protagonista. 

O que me chama a atenção é o engajamento do time e o forte propósito baseado em uma cultura organizacional sólida. Já o grande desafio é o de ganhar escala e reduzir a dependência do sistema de distribuição, ganhando força em vendas diretas e atuação em cooperativas, para dar tração ao pipeline de biodefensivos, que requer altos investimentos em assuntos regulatórios.

Através dos biofertilizantes, a Openeem visa protagonizar o ideal da biociência consciente

Aegro: Quando vejo que mais de 78% dos agricultores ainda fazem a gestão de sua propriedade em cadernetas de papel ou planilhas Excel, fica clara a oportunidade de mercado para a Aegro. Essa startup, na minha opinião, tem um produto simples, quando comparado a ERPs mais sofisticados, e um time e serviço de assistência técnica que fazem a diferença para a evolução do produtor rural. 

Com seu aplicativo de gestão, o agricultor tem uma visão detalhada da trajetória dos seus recursos ao longo da safra, desde as sementes até a venda da produção, por meio de indicadores reais que ajudam a monitorar e mensurar a qualidade do negócio. Presente em mais de 4.700 propriedades no Brasil, a Aegro já conta com mais de 2 milhões de hectares assistidos. Agora, o grande desafio é escalar para mais agricultores e integrar algumas tecnologias para o produtor gerenciar seu negócio de um só lugar.

Unindo a rotina da lavoura à gestão financeira, a Aegro quer crescer com a digitalização da agricultura

Aliare: Não sei se posso chamar a Aliare de startup, por seu tamanho e pela sua tração comercial, mas se no ambiente de startups de tecnologia temos a gigantes como a TOTVS, a Aliare é uma das minhas fortes candidatas inclusive para o posto das Big 4 Agtechs.

Oriunda do legado de três grandes empresas: o Grupo Siagri (focado no desenvolvimento de softwares para o agronegócio), a Datacoper (líder em CRM) e o BTG Pactual (que através de seu Fundo de Impacto, busca fazer investimentos em companhias com alto potencial de retorno positivo), a Aliare nasce como uma plataforma de cooperação no agronegócio. Conectando pessoas, ferramentas e empresas, ela busca unir todos os aplicativos necessários para o agro em uma única plataforma.

Além disso, a Aliare conta com uma incubadora para o agronegócio, em que um total de 6 seis startups estão contribuindo para levar inovação para a cadeia. Atualmente, a companhia está presente em cerca de 30% das distribuidoras agrícolas das principais bandeiras do país e tem sua tecnologia utilizada por 41% das grandes cooperativas do segmento agro. Já entre produtores rurais de grãos e algodão, ela alcança a marca de 2,5 milhões de hectares gerenciados por seus softwares. Ao todo, a plataforma tem mais de 50 mil usuários e atende mais de 4 mil estabelecimentos. Na minha visão, o desafio da Aliare será criar a cultura para aglutinar várias empresas e soluções dentro da sua oferta.

A plataforma da Aliare mira a cooperação no agro conectando pessoas, ferramentas e empresas para transformar tempo em produtividade

6th Grain Brazil: A 6th Grain Brazil é uma empresa americana que viu no Brasil sua grande oportunidade de crescer. Com parcerias fortes na Europa, com Syngenta e Basf, e na África, com a fundação Melinda e Bill Gates, tem no entendimento de algoritmos de alta precisão e em modelos preditivos a chave para monitorar a produtividade das lavouras em tempo real.

De forma totalmente digital, os produtores conseguem comparar a sua produtividade diária com as produtividades anteriores e até mesmo com o desempenho dos vizinhos com uma assertividade surpreendente. Da equipe de cientistas da startup, fazem parte 12 PhDs, muitos deles com passagens pela NASA. 

No Brasil, a empresa já tem parcerias sólidas, entre elas com a distribuidora de insumos Sinagro e a Adubos Araguaia. Por meio de programas de relacionamento, seu objetivo é levar os clientes a terem alta produtividade.

A 6th Grain Brazil usa da inteligência de dados para acompanhamento em tempo real da produtividade da lavoura

RegrowO mercado de carbono surgiu ainda na Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança Climática durante a ECO-92 no Rio de Janeiro e, passados quase 30 anos, dá sinais de que irá crescer. Nesse contexto, o maior desafio será o de mensurar e recompensar o agricultor pelas práticas em prol de uma agricultura mais sustentável e que possa ser capaz de alterar os rumos da mudança climática. 

O Brasil surge como forte candidato a ser uma potência nesse mercado, visto que adotamos manejos como o plantio direto, que é capaz de absorver 300 kg de carbono a mais por hectare do que o plantio convencional, além de sermos capazes de produzir duas safras por ano na mesma área.

Monitorando de forma automatizada a saúde do solo e das diferentes culturas, a Regrow mensura e verifica os estoques de carbono no solo, o que é fundamental para pôr em prática o pagamento por serviços ambientais. Com seu Módulo de Sustentabilidade, a startup ajuda a mapear as práticas de conservação em grandes áreas, mesmo que de forma remota. Já com o Módulo de Carbono ajuda a quantificar o efeito da adoção de práticas de conservação nas lavouras, calculando as taxas de lixiviação de N2O e sequestro de carbono orgânico do solo (SOC). 

Através de seu software, a Regrow foca no combate às mudanças climáticas e aumento da rentabilidade pensando na agricultura resiliente

SarDrones: O uso de drones na agricultura brasileira está crescendo exponencialmente e, hoje, 27% dos agricultores já fazem algum tipo de operação com esses equipamentos, seja para coletar imagens, racionalizar mapas, dispersar sementes ou até mesmo aplicar defensivos.

Nesse mercado, a SarDrones trabalha para expandir o uso do controle biológico, principalmente na cultura de cana-de-açúcar, e também atua na dispersão de sementes em florestas. Junto com o Governo do Estado de São Paulo, a empresa está dispersando sementes de espécies locais para promover o reflorestamento. No caso da cana, sua atuação é forte em áreas de usinas, para aplicação da Cotesia e do Trichograma. Com 5 modelos de dispensers desenvolvidos, a startup já cobriu mais de 150 mil hectares prestando seus serviços. 

Com drones específicos, dispensers e softwares próprios, a SarDrones é um dos nomes fortes da agricultura 4.0

Perfect Flight: Fundada em São João da Boa Vista (SP) em 2015, pelos produtores rurais Kriss Corso e Josué Corso, a Perfect Flight conta com um sistema de gerenciamento de pulverizações aéreas. O sistema foi construído em ambiente em nuvem (cloud computing), o que permite que ele seja executado em qualquer computador com acesso à internet. 

Com o software da Perfect Flight, é possível manter uma distância segura dos locais que devem ser preservados e evitar atingir lençóis freáticos e gerar uma série de problemas ambientais, como mortalidade da macrofauna e microfauna do solo e consequente contaminação de rios e lagos. Outra vantagem da adoção do serviço está relacionada à mitigação de riscos aos insetos polinizadores, principalmente as abelhas, pela margem de segurança que impõe para a operação aeroagrícola.

Hoje, a startup conta com mais de 15 milhões de hectares processados e está em fase de expansão de suas operações nos Estados Unidos. 

A Perfect Flight gera eficiência na produção agrícola oferecendo serviços de monitoramento de aplicações aéreas em uma plataforma digital

Biome4all: A saúde do solo deverá ser em um curto espaço de tempo uma das maiores preocupações do agricultor/pecuarista brasileiro. Se já não bastasse o fato de nossos solos serem pobres e ácidos, eles também são pobres quando falamos de microbiota. A técnica do plantio direto nos ajudou muito a melhorar esse fator, mas ainda há um amplo espaço para evoluir, no que a Biome4all auxilia com sua tecnologia de bioinformática para interpretação genética do solo que ajuda o agricultor na tomada de decisão. 

O processo para a tomada de decisão é relativamente simples e depende: (1) da coleta de solo para ter uma amostra microbiana; (2) da decodificação da diversidade genética com técnicas de última geração para a identificação de fungos e bactérias; (3) da análise dos dados, com taxonomia completa da microbiota do solo.

A BIOME4ALL analisa a microbiota do solo – fungos, bactérias e nematoides – graças ao sequenciamento genético

Com todas essas informações à mão, o agricultor/pecuarista pode cuidar melhor da saúde do seu solo e ainda obter melhores linhas de financiamento, reduzir o uso de insumos químicos e aumentar sua produtividade.

AgriAcordo: Por meio de um marketplace de comercialização de insumos agrícolas B2B, a AgriAcordo busca conectar indústrias, distribuidores e cooperativas para fazer girar de forma mais eficiente um mercado que hoje é da ordem de US$ 30 bilhões no Brasil. 

Com seus desafios, esse mercado é conhecido pela margem de lucro baixa e pela grande flutuação de preços entre regiões e cultivos. A proposta da AgriAcordo é ligar compradores e vendedores do setor atacadista de forma simples e dar transparência aos preços.

A AgriAcordo é um marketplace focado na compra e venda de insumos entre empresas

Diante de tantas soluções de alto potencial, tem sido muito enriquecedor para mim estudar o mercado de agtechs, o que me motivou a criar a minha própria. Desde setembro, estou trabalhando para desenvolver a Valeouro biotec, uma plataforma de tropicalização de bio soluções para o Brasil.

A Valeouro se propõe a ser a plataforma de conexão entre empresas internacionais, que querem entrar no mercado de bio soluções brasileiro, e universidades, distribuidores e agricultores que podem facilitar esse processo. No momento, nosso portfólio já tem mais de 30 itens.

Mas tenho de confessar que não está sendo fácil, daí a minha admiração redobrada pelas agtechs e seus fundadores visionários. 

Com eles, aprendi que é preciso ser apaixonado pela ideia, obstinado e esforçado. Afinal, muitas dessas empresas precisaram se reinventar, e isso não se dá em ciclos planejados, se dá todos os dias para, finalmente, a solução ter sucesso e chegar a entrar em uma lista de destaques. 

Renato Seraphim, 50 anos, é engenheiro agrônomo graduado pela Unesp de Jaboticabal (SP) e pós graduado em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

No agronegócio, fez especializações junto ao Programa de Estudos dos Sistemas Agroindustriais (Pensa-USP), à Fundação Dom Cabral (FDC), Insead Business School e Perdue University. Com 25 anos de experiência no setor, tem passagem por empresas de defensivos agrícolas e biotecnologia. 

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a visão do AgTech Garage News.