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Cachaça é um negócio de família

ATEG AGROINDÚSTRIA DE CANA-DE-AÇÚCAR / CACHAÇA
ESCRITO POR FLÁVIO CHRISTO, DE JUIZ DE FORA
15/12/2023 . SISTEMA FAEMG, SINDICATOS, SENAR

Tradição familiar e cachaceira se misturam, com alambiques que passam de geração em geração

Atualmente, a Zona da Mata é a região do estado com maior índice de alambiques registrados. A cachaça é tão importante nesta área que um grupo de 18 produtores registrou o processamento de 5837 toneladas de cana-de-açúcar só em 2023.  Na última safra 591.756 litros de cachaça foram produzidos.

Algumas bebidas são quase centenárias e passaram de geração em geração dentro das famílias. A história do destilado, se mistura com a das pessoas que trabalham em sua produção, com algumas doses de vontade de empreender e outras de admiração por uma boa cachaça.  

Barris de armazenamento e envelhecimento de cachaça

Cachaça Vitória tem quase 100 anos de produção

O ano de 1929 é marcado pela grande quebra da bolsa de valores de Nova York, momento da história que gerou impactos em todo o mundo, influenciando produtos, métodos de produção e o dia a dia de famílias também aqui no Brasil.

O governo brasileiro à época mandou cortar todos os pés de café do país, a fim de aumentar o preço do produto no mercado internacional. Uma das pessoas afetadas diretamente por essa medida foi Geraldino Rocha, maior produtor de café da região de Bicas na época. Com o dinheiro da indenização que recebeu, montou um alambique que, hoje, está na mão de seu neto, Ivan Rocha Manso.

“Com meu avô foi de 1930 até 1955, daí o meu pai e o meu tio assumiram, mas já estavam no negócio há 10 anos, desde 1945. Foram juntos até 1989 com o falecimento do meu tio e, em 2004, devido à idade avançada do meu pai, eu e o meu irmão assumimos”, relata Ivan.

Ivan Rocha Manso

Em sua terceira geração na família e prestes a completar os primeiros 100 anos de produção, o alambique prepara os sucessores que vão cuidar do seu futuro. “O meu filho tem 26 anos e o meu sobrinho tem 14. Até o centenário ele já vai ser maior de idade. Meu filho produz cervejas e já ganhou diversos prêmios, estou confiante de que vai ser um bom produtor de cachaça também. Com o centenário do alambique, estamos pensando na preparação dos nossos sucessores”, relatou Ivan.

Na cachaça Pereirinha, duas gerações trabalham juntas

A Pereirinha está na terceira geração de uma mesma família e tem uma história ainda mais antiga. “Meu avô comprou a fazenda de uma família de colonos portugueses que produzia a cachaça, os Pereira. Ele decidiu manter o nome pois era conhecido e já na época fazia sucesso”, contou Pedro Duim, o diretor comercial da agroindústria e neto do homem que comprou a propriedade.

A propriedade é gerida pelo casal Pedro e Patrícia Duim, juntamente com seus filhos, Pedro e Vítor Duim. A ideia é fortalecer o negócio familiar e fazer dali a fonte de renda também das futuras gerações.  “É um orgulho ver que meus filhos optaram por permanecer aqui, acreditando no negócio da família e fazendo crescer nosso patrimônio”, diz Patrícia Duim, master blender

Pedro Duim com a mãe, Patrícia, em frente ao local de armazenagem da cachaça Pereirinha

Em 2023, a Pereirinha começou sua jornada internacional, participando de concursos e realizando suas primeiras exportações. A expectativa para as próximas safras é ultrapassar a produção de cem mil litros de cachaça. 

Tradição no sabor e na identidade visual

A cachaça Araci mantém a mesma receita e o mesmo rótulo há mais de 90 anos. Facilmente reconhecido na região, o produto está em circulação desde aproximadamente 1930 e já está na quarta geração em uma mesma família. “A minha avó já fazia uma cachaça, mas não vendia, produzia pois gostava de beber”, conta Erênio de Castro, que administra o alambique junto com as filhas Cássia e Renata.

A propriedade fica em Roça Grande, distrito de São João Nepomuceno, e ainda mantém o mesmo alambique de sua primeira safra. “Tivemos até hoje apenas quatro alambiqueiros. Todos os anteriores trabalharam conosco até se aposentar. Já tivemos duas gerações de uma mesma família nessa função. São pessoas de nossa confiança que compõem essa história desde o início, e com quem dividimos essa memória”, disse Cássia de Castro.

Erênio e suas filhas em evento de São João Nepomuceno

O nome da cachaça Araci foi dado em homenagem a um povoado que fica próximo à fazenda.

História da Cachaça

Produzida em terras brasileiras desde aproximadamente 1530, a cachaça é o destilado mais antigo da América. A bebida passou a ser produzida em Minas Gerais após a chegada de colonizadores para a exploração de minerais. No início do século XX, a região das matas mineiras tinha como principal cultura agrícola o café, exportado do Brasil para todo o mundo. Com a crise de 1929 e o fim do ciclo cafeeiro, aconteceu uma grande diversificação de cadeias produtivas, dentre elas, a da cachaça.

Tanta história mereceu o reconhecimento e a valorização pelo Sistema Faemg Senar. Em novembro deste ano aconteceu o encerramento do grupo de assistência técnica e gerencial - ATeG Agroindústria da Cachaça, promovido pelo Sindicato Rural de Bicas. 

“Esses produtores ganharam nos últimos anos diversas medalhas em concursos de bebidas destiladas, tanto no Brasil quanto no mundo, o que comprova a qualidade do trabalho desenvolvido”, disse Estevão Castro, técnico de campo que atendeu ao grupo.

Além do ATeG, cursos e programas especiais também são realizados para esses produtores, fortalecendo a cadeia e aumentando a profissionalização. “Já fiz muitos cursos, até perdi a conta, são para mais de 50. Produção de cachaça, dois de análise sensorial, Negócio Certo Rural, Gestão com Qualidade no Campo. Foi muito bom. Com o GQC e o ATeG a gente aprende a tratar nosso negócio como uma empresa, com mais profissionalismo na propriedade”, relatou Patrícia Duim, master blender na cachaça Pereirinha.

O ATeG agroindústria da Cachaça na região teve duração de 24 meses. 18 famílias produtoras de cachaça, seus funcionários, suas plantações e seus alambiques foram atendidos.

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