Cafés da Mantiqueira ganham identidade com Denominação de Origem

Não só os cafeicultores ganham com o selo de origem, passaporte para valorização do produto, e, inclusive, dos preços no mercado interno e no exterior

A chancela de exclusividade concedida pelo Inpi – a Denominação de Origem (DO) – aos cafés produzidos em 25 municípios da Serra da Mantiqueira, no Sul de Minas Gerais, deve ser emitida ainda neste mês. O selo representa uma espécie de diploma entregue pelo órgão do Ministério da Economia aos cafeicultores da Mantiqueira de Minas, certificando café verde em grão e café industrializado torrado ou moído com suas características únicas.

Vencida essa etapa, o trabalho agora será obter o reconhecimento tanto dos clientes do café cru, as torrefadoras, quanto do consumidor final do café torrado, diz Lucas Alkmin, presidente da Associação dos Produtores de Café da Mantiqueira (Aprocam). “O desafio é fazer com que eles tenham conhecimento da importância da região da Mantiqueira de Minas no mercado de cafés especiais e reconheçam que, ao se deparar com o selo, estão diante de cafés com sabores e aromas específicos”, afirma.

Não só os cafeicultores ganham com o selo de Denominação de Origem, passaporte para valorização do produto, e, inclusive, dos preços no mercado interno e no exterior. Diante do avanço do coronavírus no Brasil e dos impactos da doença respiratória sobre a economia e a transação internacional de produtos agrícolas, não será algo fácil. Contudo, a boa notícia é que um certificado do nível da DO fortalece o sentimento de pertencimento presente na região, destaca as suas peculiaridades de relevo, solo e altitude e agrega ao reconhecimento a cultura e o turismo locais.

Breno Mesquita, vice-presidente da Faemg e presidente da Comissão Nacional de Café da CNA, observa que a valorização de outras atividades no entorno da cafeicultura reconhecida em seu terroir também promove o desenvolvimento regional, algo essencial para o estado. “É uma conquista inédita para a região da Mantiqueira. Até então, só o cerrado detinha a Denominação de Origem. Além da agregação de valor para a cafeicultura, o turismo e a cultura convivem de forma harmoniosa com a atividade”, afirma.

 No caminho percorrido pelos cafeicultores do cerrado e da Mantiqueira de Minas estão também produtores da região de Capelinha, no Vale do Jequitinhonha, e das chamadas Matas de Minas, na área compreendida por municípios como Manhuaçu e Manhumirim, na Zona da Mata mineira. O novo selo chega num processo de alteração do registro da Indicação de Procedência Região da Serra da Mantiqueira de Minas Gerais para Denominação de Origem Mantiqueira de Minas.

Com o certificado de Denominação de Origem, todos os produtores que estejam na região delimitada pelo selo e cumpram as regras contidas nas especificações técnicas do novo registro poderão fazer uso da chancela. Na Mantiqueira de Minas, atuam 8,2 mil cafeicultores, dos quais 82% trabalham em pequenas propriedades rurais, com área total de 56 mil hectares. A produção global da região é de 1,3 milhão de sacas de 60 quilos por ano.

As lavouras de cafés plantados acima de 1.040 metros de altitude se estendem por 25 municípios: Baependi, Brasópolis, Cachoeira de Minas, Cambuquira, Campanha, Carmo de Minas, Caxambu, Conceição das Pedras, Conceição do Rio Verde, Cristina, Dom Viçoso, Heliodora, Jesuânia, Lambari, Natércia, Olímpio Noronha, Paraisópolis, Pedralva, Piranguinho, Pouso Alto, Santa Rita do Sapucaí, São Lourenço, São Gonçalo do Sapucaí, São Sebastião da Bela Vista e Soledade de Minas.

Entre as características exclusivas do produto da Mantiqueira de Minas estão os sabores de caramelo, chocolate, frutas maduras, papaia, manga, vinho tinto e abacaxi; aromas intenso, floral, mel, caramelo e frutas maduras; corpo cremoso e aveludado; acidez cítrica, alta e intensa e retrogosto longo, prazeroso, com gosto de mel e caramelo. A cafeicultura tem tradição secular na região.


SAFRA DA BOA

57Milhões de sacas - É a estimativa da produção de café do Brasil em 2020, feita pelo IBGE e semelhante aos cálculos da Conab

EM BAIXA

A cafeicultura brasileira tem trabalhado com remuneração abaixo do custo de produção, segundo a Faemg e a CNA. Num momento de colheita de ciclo alto – o volume de panha deverá entrar de forma efetiva no mercado consumidor em julho –, os preços da saca de 60kg baixaram de R$ 480, ante R$ 580 a R$ 600.

EM ALTA

A despeito das dificuldades enfrentados com os preços de venda, sobretudo para manter tratos culturais e pagamento da mão de obra intensa nas lavouras em áreas de montanha, os cafeicultores de Minas devem repetir, em 2020, a liderança do estado na produção brasileira. O café de Minas promete responder por 52% do total no país.